A Childhood Brasil e a Polícia Rodoviária Federal (PRF) lançaram, na Sede Nacional da PRF, em Brasília (DF), a Cartilha do Projeto Mapear 2025/2026. Em sua 11ª edição, o mapeamento identificou 13.758 pontos vulneráveis em rodovias federais, uma redução de 22,2% em relação ao biênio anterior, quando foram registrados 17.687 pontos. A queda reflete um processo de apuração mais refinado, com aprimoramento metodológico e uso de georreferenciamento de precisão, que permite um diagnóstico cada vez mais rigoroso da realidade em campo.
Entre os pontos mapeados estão estabelecimentos comerciais, hotéis, motéis e postos de combustíveis às margens das rodovias federais. A cartilha classifica os locais em quatro níveis de risco à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, baixo, médio, alto e crítico. E aponta queda na criticidade dos locais avaliados: os pontos críticos recuaram de 4,56% para 3,29%, e os de alto risco, de 14,51% para 13,50%. A classificação não indica ocorrência comprovada do crime, mas a presença de fatores de risco associados.
Uma das causas para a redução dos índices é a expansão digital. Redes sociais e aplicativos têm facilitado o aliciamento e o consumo de conteúdos sexuais sob suposto anonimato, alterando a dinâmica tradicional nas rodovias. Ainda assim, o fenômeno da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes tornou-se mais complexo: a persistência de 452 pontos críticos confirma que a vulnerabilidade física permanece um desafio real, exigindo presença constante da PRF e estratégias de inteligência cada vez mais sofisticadas.
Nessa direção, o Projeto Mapear 2025/2026 consolida o trabalho de inteligência como eixo estratégico, com foco em “levantar para prevenir e enfrentar”, transformando dados em conhecimento que subsidia ações preventivas com maior assertividade. A edição marca também a transição para o Mapear 2.0, voltado ao uso estratégico de tecnologia e ferramentas de análise para direcionar recursos humanos a alvos prioritários, acompanhando as mudanças no modus operandi dos criminosos, inclusive no ambiente digital.
Para Fernando Oliveira, diretor-geral da PRF, o Mapear consolidou-se como uma das experiências mais bem-sucedidas de policiamento preventivo no país.
“A eficácia da atuação estatal reside na capacidade de antecipar riscos e, por isso, a PRF busca sempre inovar e ampliar esta rede de proteção. É preciso que esta ferramenta seja compartilhada com quem também tenha este olhar de proteção voltado às pessoas vulnerabilizadas, mas não só nas rodovias federais”
disse Fernando Oliveira.
Utilizado pela PRF desde 2003, o Projeto Mapear orienta diretrizes e ações no enfrentamento aos crimes sexuais contra crianças e adolescentes. Com os dados reunidos, a instituição atua na prevenção, por meio de campanhas educativas e de conscientização nos locais mapeados, e na repressão, com identificação de suspeitos e operações como a Domiduca, voltada ao resgate de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
Em 2024 e 2025, foram realizadas 86 edições da Operação Domiduca em todo o país, fiscalizando 16.592 pontos e possibilitando o resgate de 111 crianças e adolescentes. No ano passado, cerca de 90 mil pessoas foram alcançadas por ações preventivas e educativas, trabalho que pode ter contribuído para a redução da vulnerabilidade imediata e para a queda de ocorrências nos pontos fiscalizados.
Desde 2009, a Childhood Brasil atua ao lado da PRF na consolidação dos dados obtidos no mapeamento das rodovias federais, com o objetivo de qualificar atuações de prevenção mais eficazes. Para Eva Dengler, Superintendente de Programas da Childhood Brasil, o levantamento é insumo fundamental tanto para as forças de segurança quanto para as estratégias do Programa Na Mão Certa.
“Os relatórios produzidos pelo projeto são fundamentais para mapear os territórios de maior vulnerabilidade e orientar, de forma mais eficiente, a atuação de empresas e do poder público em regiões como áreas portuárias e grandes entroncamentos rodoviários”
destaca Eva.
Por meio do Pacto Empresarial, o Programa Na Mão Certa engaja empresas de transporte e logística para transformar caminhoneiros em agentes de proteção, combinando educação continuada com o monitoramento de pontos vulneráveis realizado em parceria com a PRF por meio do Projeto Mapear.