O que sentem as gerações que nascem e são criadas em meio ao colapso ambiental?
O que significa nascer e crescer num mundo em crise climática? No Brasil, de quais cenas diferentes estamos falando?
A psicóloga, pesquisadora e jornalista Amanda Garcia Dantas tangeia essas questões em seu projeto na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ): “Ansiedade climática, gênero e vulnerabilidade socioambiental na primeira infância”.
Em entrevista à Childhood Brasil, a doutoranda nos guia pelos olhares de quem está se desenvolvendo em um mundo em colapso(s).
O que sentem as crianças diante da crise climática – e de quais crianças estamos falando, principalmente?
Childhood Brasil: Eu sou uma criança que nasceu em uma área com emergências climáticas no Brasil: que contextos podem ser esses? Pode nos dar alguns exemplos?
Amanda Garcia Dantas: No Brasil, as crianças nascem em territórios muito distintos do ponto de vista climático. Uma criança na Amazônia convive com secas que fecham rios, isolam comunidades e destroem a pesca, que é a base da alimentação e da cultura local. Uma criança na Baixada Fluminense ou em Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, cresce sabendo que, quando o verão chega, pode ter calor intenso e chove muito, a rua vira rio, a escola fecha e pessoas morrem. Uma criança no Nordeste pode ter crescido vendo açudes secos e animais mortos. Uma criança indígena vê o território ancestral que define sua identidade sendo destruído pelo fogo, pela soja. Esses não são eventos excepcionais para essas crianças. São a textura do cotidiano.
Childhood Brasil: De que maneira eu entro em contato com essa realidade? Como ela é apresentada para mim, como fico sabendo?
Amanda: De algumas formas simultâneas. Pela experiência direta, quando a própria casa alaga, quando a escola fecha, quando a família perde tudo. Pela observação dos adultos ao redor, o medo no rosto da mãe quando o céu fecha, a tensão que antecede a chuva. Pela mídia e pelas redes sociais, especialmente entre os mais velhos. E pelo corpo, porque o calor extremo, a fumaça, a água contaminada são experiências físicas antes de serem conceitos. A criança, por meio dos seus sentidos, experiencia os efeitos das mudanças climáticas. O processo é emocional e não racional, embora afete também a forma de pensar. Lembrando que a capacidade lógica e racional surge após os seis, sete anos de idade, mas, antes disso, a criança já processa as experiências via sentidos, percepção e emoção. E essas experiências criam um banco de dados na memória emocional e guiam o processo de raciocínio e de comportamento ao longo da vida.
Childhood Brasil: De que maneira isso atravessa o meu emocional? A percepção de segurança, a capacidade de imaginar o futuro, a relação com esperança e permanência?
Amanda: A percepção de segurança é a primeira a ser afetada. A criança que viveu um desastre aprende que o mundo pode desmoronar de repente, literalmente. Isso compromete o que a teoria do apego chama de base segura, a sensação de que o ambiente é previsível e protetor. Quando essa base é abalada, a criança pode desenvolver hipervigilância, dificuldade de dormir, medo de chuva, pesadelos. A capacidade de imaginar o futuro pode ficar enviesada pelas emoções que não ajudam, relacionadas às vivências traumáticas. Crianças expostas a desastres frequentemente têm dificuldade de projetar planos futuros, dependendo da idade, é claro. A esperança não é um dado natural do desenvolvimento. Ela precisa ser sustentada por adultos e por contextos que sinalizem que o amanhã existirá e vale a pena.
Childhood Brasil: Isso impacta a minha motivação de construir conforto material? Pode impactar minha jornada laboral, profissional ao longo da vida?
Amanda: Sim. Crianças que crescem em contextos de vulnerabilidade crônica aprendem, pela experiência repetida, que o futuro é imprevisível. Essa aprendizagem pode se traduzir no que a literatura chama de orientação temporal para o presente, uma dificuldade de investir no longo prazo quando o curto prazo exige toda a energia disponível. Na prática, isso pode aparecer como menor engajamento na escolarização, escolhas profissionais mais imediatas e uma crença reduzida de que o esforço de hoje será recompensado amanhã. Não se trata de falta de ambição. Trata-se de uma resposta adaptativa e emocional e racional a um ambiente que ofereceu poucas evidências de que o futuro vale o investimento.
Childhood Brasil: Pode impactar minha autoestima e minha saúde emocional e relacional?
Amanda: Sim, de forma profunda. A criança que perde a casa altera o curso de seu processo de formação identitária, porque o lar é um dos primeiros contextos em que a criança aprende quem ela é, onde ela pertence e o que pode esperar do mundo. A criança deslocada por um desastre precisa reconstruir seu microssistema (vínculos, rotinas e sentido de pertencimento em um novo contexto), muitas vezes sem suporte adequado. A saúde relacional também é afetada porque os próprios cuidadores estão traumatizados, e cuidadores traumatizados têm menor capacidade de oferecer a estabilidade emocional de que a criança precisa para se desenvolver. O trauma climático é, com frequência, um trauma que atravessa toda a família, e não apenas o indivíduo.
Childhood Brasil: Os mais jovens estão com uma sensação de responsabilidade excessiva sobre “salvar o planeta”?
Amanda: Sim, especialmente os adolescentes. Um estudo conduzido por Hickman e colaboradores, publicado em 2021 na revista The Lancet Planetary Health sob o título Climate anxiety in children and young people and their beliefs about government responses to climate change: a global survey, ouviu mais de dez mil jovens entre 16 e 25 anos em dez países, incluindo o Brasil. Os resultados mostraram que a maioria sentia medo, tristeza e impotência diante da crise climática, e que muitos tinham a percepção de que os adultos e os governos estavam falhando em agir com a urgência necessária. Esse sentimento de traição geracional, combinado com a sensação de que a responsabilidade pelo futuro do planeta recai sobre os mais jovens, é uma forma de sofrimento moral que pode ser paralisante e que a pesquisa associou a prejuízos no funcionamento cotidiano.
Para crianças pequenas, o mecanismo é diferente. Elas ainda não têm o repertório cognitivo para abstrair a crise global, porque estão mais no presente, mas sentem seus efeitos locais com intensidade, no corpo, na rotina, nas emoções dos adultos ao redor. O peso existencial de salvar o planeta é mais característico da adolescência, mas o sofrimento concreto diante dos efeitos climáticos começa muito antes.
Childhood Brasil: No Brasil, contextos de insegurança climática impedem que crianças acessem todos os seus direitos. O mesmo costuma ser verdade para crianças que precisaram deslocar-se com suas famílias devido a eventos extremos. De que maneira essa criança está mais vulnerável na sociedade?
Amanda: O deslocamento por desastre climático é uma das formas mais agudas de vulnerabilidade na infância. A criança perde seu mundo, seu território, que é o seu contexto de desenvolvimento. Perde a escola, os amigos, a rotina, que são as estruturas que organizam a vida infantil. Perde o acesso a serviços de saúde e assistência social, que muitas vezes já eram precários antes do desastre. No Brasil, o Marco Legal da Primeira Infância reconhece a proteção integral da criança, mas a implementação é dramaticamente desigual, e as crianças em situação de desastre são justamente as que menos acessam essa proteção.
Childhood Brasil: As perguntas acima falam em “uma criança”, mas sabemos que há várias infâncias e adolescências no Brasil (e no mundo). De quais estamos falando ao pensar nas maiores vulnerabilidades, e ausências de estrutura, recursos e apoio?
Amanda: Estamos falando principalmente de crianças negras, indígenas, quilombolas e moradoras de periferias urbanas, principalmente do gênero feminino. São as que vivem nos territórios mais expostos aos riscos climáticos e as que têm menos recursos para se proteger e se recuperar. A crise climática não é democrática. Ela aprofunda desigualdades que já existiam. Uma criança branca de classe média que vê notícias sobre enchentes na televisão e uma criança negra da periferia que perdeu a casa na enchente, ou um parente, amigos, estão vivendo experiências radicalmente distintas diante da mesma crise. A perspectiva interseccional, que considera gênero, raça, classe e território de forma articulada, é indispensável para não tratar a infância como um bloco homogêneo.
Childhood Brasil: Qual a forma correta de conversar e incluir crianças e adolescentes nessa realidade?
Amanda: Precisamos dar voz às vivências e sentimentos das crianças. Inclusive, está previsto em lei, por meio do ECA (Estatuto da Criança e Adolescente). Precisamos dar escuta ativa e abrir diálogos honestos sobre o assunto, sem catastrofizar. Crianças suportam a verdade muito melhor do que o silêncio ansioso dos adultos. O que as adoece não é saber que há problemas, mas perceber que os adultos estão assustados e não falam [a respeito]. A partir do que a criança já sabe e sente, [é preciso] não impor um enquadramento adulto – validar as emoções sem amplificá-las; oferecer ações concretas e proporcionais à faixa etária – porque a agência, a sensação de poder fazer algo, é protetora; e garantir que a criança saiba que há adultos responsáveis pelo problema, ou seja, que a responsabilidade não é dela. Para crianças que viveram desastres, a conversa, idealmente, deve ser mediada por profissionais de saúde mental, pois pode ativar reações traumáticas.
Childhood Brasil: Nos conte sobre sua pesquisa.
Amanda: Estou desenvolvendo, no projeto do doutorado, uma pesquisa que parte de uma pergunta que me parece urgente e ainda sem resposta no Brasil: o que sentem as crianças diante da crise climática? E mais do que isso, como elas expressam esse sentimento quando ainda não têm palavras para nomeá-lo? A tese, que desenvolvo no doutorado em Psicologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), investiga crianças de zero a seis anos em dois territórios do Rio de Janeiro que vivem a crise climática de formas muito concretas. Seropédica, na Baixada Fluminense, marcada por enchentes recorrentes e calor extremo, e Petrópolis, cidade que em fevereiro de 2022 perdeu 241 pessoas em um único evento climático. São crianças que não precisam ler sobre aquecimento global para conhecê-lo. Elas o conhecem pelo corpo, pela memória e pelo medo.
A pesquisa vai além do diagnóstico. Ao final, pretendemos produzir um protocolo de intervenção socioemocional para que psicólogos e educadores saibam como identificar e manejar a ansiedade climática nessa faixa etária, e um documentário científico que devolve às próprias comunidades os achados produzidos a partir de suas histórias. A produção científica brasileira sobre ecoansiedade na primeira infância é ainda incipiente, e essa ausência não é casual. As crianças mais afetadas pela crise climática no Brasil seguem sendo as menos estudadas, as menos ouvidas e as menos protegidas. Essa lacuna não é só científica. É política. Para que as promessas feitas na COP30 em Belém se transformem em proteção real, a psicologia brasileira precisa produzir as evidências de que as políticas públicas precisam para agir. É exatamente isso que esta pesquisa se propõe a fazer.