Pioneiros na luta contra o abuso e a exploração sexual DE crianças e adolescentes

Como acontece a violência sexual?

POR Childhood Brasil 02/02/2026
Tempo de leitura: 5 mins

A violência sexual contra crianças e adolescentes não acontece de uma única forma, nem segue um padrão único. Ela pode ocorrer em diferentes contextos — familiares, institucionais, comunitários ou digitais — e, na maioria das vezes, não começa com força física ou ameaça explícita.

Em geral, o agressor se aproveita de desigualdades de poder, da confiança e da vulnerabilidade da criança ou do adolescente para se aproximar, manipular e silenciar. Por isso, compreender como a violência acontece na prática é fundamental para reconhecê-la, preveni-la e interrompê-la.

Estratégias comuns usadas por agressores

Independentemente do contexto, a violência sexual costuma envolver algumas estratégias recorrentes:

  • Criação de vínculo afetivo ou de confiança, especialmente quando o agressor já faz parte do convívio da vítima;
  • Apresentação de uma imagem de cuidado, proteção ou afeto, para reduzir defesas e gerar dependência emocional;
  • Uso de manipulação, chantagem emocional ou ameaças veladas para manter o sigilo;
  • Gradualidade: comportamentos aparentemente “inofensivos” podem evoluir para atos cada vez mais invasivos;
  • Isolamento da vítima, seja físico ou emocional.

Em situações menos frequentes, mas possíveis, a violência pode ocorrer de forma direta, agressiva e coercitiva desde o início.

Como isso acontece em diferentes contextos

Violência sexual no contexto familiar

A violência pode ocorrer dentro de casa, praticada por pais, padrastos, irmãos mais velhos, outros familiares ou cuidadores. O agressor se aproveita da autoridade, da confiança e da dependência da criança para criar situações em que fica a sós com a vítima, muitas vezes sob pretextos cotidianos, como cuidados, brincadeiras ou demonstrações de afeto.

Com o tempo, os comportamentos podem se intensificar, enquanto o agressor reforça o silêncio por meio de ameaças emocionais, como a desestruturação da família ou punições à criança. Por estar em um ambiente que deveria ser de proteção, a vítima pode levar anos para compreender que viveu uma situação de violência.

Violência sexual praticada por pessoas desconhecidas

Em espaços públicos, o agressor pode se aproximar da criança ou do adolescente utilizando pretextos aparentemente banais, como oferecer ajuda, iniciar uma conversa, dar presentes ou pedir informações. A abordagem costuma ocorrer quando a vítima está sozinha, distraída ou distante de pessoas responsáveis.

A tentativa de parecer inofensivo e confiável é uma estratégia comum. Interações inadequadas entre adultos e crianças em espaços públicos, sem motivo claro, devem sempre ser motivo de atenção.

Violência sexual entre crianças e adolescentes com desigualdade de poder

A violência sexual também pode ocorrer entre crianças ou adolescentes quando há desigualdade de poder, seja por diferença significativa de idade, maturidade, força física, status ou compreensão da situação.

Em contextos familiares ou de convivência frequente, como entre primos ou irmãos, o agressor pode propor “brincadeiras”, desafios ou jogos secretos, explorar a confiança da vítima ou expô-la a conteúdos inadequados. O silêncio e o medo costumam estar presentes, especialmente quando existe vínculo afetivo entre os envolvidos.

Violência sexual online

No ambiente digital, o agressor frequentemente se apresenta como alguém da mesma idade da vítima, utilizando perfis falsos. Ele explora fragilidades emocionais, como solidão, baixa autoestima ou conflitos familiares, para criar vínculos intensos e dependência afetiva.

Com o tempo, solicita imagens, vídeos ou interações íntimas, normalizando comportamentos abusivos. O material obtido pode ser usado para chantagem, forçando a continuidade da violência ou encontros presenciais.

Violência sexual em contextos de vulnerabilidade social

Crianças e adolescentes em situação de rua, trabalho infantil ou extrema vulnerabilidade econômica estão mais expostos à violência sexual. O agressor se aproveita da ausência de adultos protetores e oferece comida, dinheiro ou outros benefícios em troca de favores, configurando exploração sexual.

Violência sexual em instituições

A violência sexual também pode ocorrer em ambientes institucionais, como escolas, serviços de saúde, entidades de acolhimento ou espaços religiosos. O agressor utiliza sua posição de autoridade para criar situações de proximidade, favorecer a vítima de forma indevida ou ameaçá-la com punições acadêmicas, disciplinares ou sociais.

Consequências da violência sexual

As consequências da violência sexual variam de acordo com diversos fatores, como:

  • Idade em que a violência começou;
  • Duração e frequência dos abusos;
  • Grau de violência ou ameaça envolvido;
  • Proximidade entre vítima e agressor;
  • Existência ou ausência de figuras protetoras;
  • Acesso a serviços de acolhimento e cuidado adequados.

Consequências no curto prazo

Crianças e adolescentes podem apresentar mudanças comportamentais, emocionais ou físicas logo após a violência. Esses sinais variam de pessoa para pessoa e devem sempre ser levados a sério.

Consequências no médio e longo prazo

Entre os possíveis impactos estão:

  • Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs);
  • Gestações precoces;
  • Dificuldades em vínculos afetivos e relações de confiança;
  • Transtornos emocionais, como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático;
  • Confusão entre afeto e sexualidade;
  • Comportamentos autodestrutivos ou compulsivos;
  • Uso problemático de substâncias lícitas ou ilícitas.

Essas consequências não são automáticas nem universais. O acesso à escuta qualificada, ao acolhimento e à proteção pode reduzir significativamente os impactos da violência e favorecer a recuperação da criança ou do adolescente.

Saiba mais: guia-referencia-construindo-cultura-prevencao-violencia-sexual-2020.pdf 

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