A violência sexual contra crianças e adolescentes não acontece por acaso e nem de forma isolada. Ela está inserida em contextos sociais, culturais, históricos e institucionais que criam condições para que essa violação ocorra e, muitas vezes, permaneça invisível.
Por trás de cada caso, há fatores estruturais que favorecem o abuso e a exploração sexual, dificultam a denúncia e fragilizam a proteção das vítimas. Compreender esses fatores é essencial para enfrentar o problema de forma efetiva, contínua e preventiva.
Um dos principais fatores que sustentam a violência sexual é a desigualdade de poder entre adultos e crianças ou adolescentes. Essa assimetria está relacionada à idade, à autoridade, à dependência emocional ou financeira e ao controle sobre decisões e recursos.
Crianças e adolescentes estão em processo de desenvolvimento e dependem de adultos para sua proteção. Quando essa relação de cuidado é distorcida, o poder pode ser usado para manipular, intimidar, seduzir ou silenciar a vítima, comprometendo sua capacidade de compreender, consentir ou reagir à violência.
Essa situação se agrava quando o agressor ocupa posição de prestígio ou autoridade. Nesses casos, é comum que famílias, instituições ou comunidades escolham proteger a reputação do adulto em vez de proteger a criança ou o adolescente, o que gera revitimização, descrédito e perpetua ciclos de violência.
Esse desequilíbrio é reforçado por estruturas históricas como o patriarcado — um sistema social que, ao longo do tempo, atribuiu maior poder aos homens e subordinou mulheres, crianças e adolescentes, tanto no espaço público quanto no privado.
A violência sexual é frequentemente sustentada por uma cultura do silêncio, marcada pelo medo, pela vergonha e pela culpabilização da vítima. Frases como “isso acontece dentro de casa”, “é melhor não se envolver” ou “vai destruir a família” contribuem para que abusos não sejam revelados ou enfrentados.
Em muitos contextos, comportamentos abusivos são minimizados, relativizados ou confundidos com demonstrações de afeto, brincadeiras ou relações supostamente “consentidas”, o que dificulta a identificação da violência e favorece sua repetição.
O silêncio também pode ser imposto diretamente pelo agressor, por meio de ameaças, chantagens emocionais ou manipulação, criando ciclos de medo, isolamento e culpa.
O adultocentrismo — a ideia de que apenas os adultos sabem, decidem e têm legitimidade — faz com que crianças e adolescentes sejam vistos como incapazes de compreender, relatar ou reagir a situações de violência.
Quando a palavra de uma criança ou adolescente é desacreditada ou desvalorizada, a proteção falha e a impunidade se fortalece. Esse cenário dificulta denúncias, enfraquece a atuação das redes de proteção e expõe ainda mais as vítimas.
Quando a sexualidade é tratada como um tema proibido ou inadequado para crianças e adolescentes, eles deixam de receber informações essenciais sobre seus corpos, limites e direitos.
A ausência de diálogo e de educação sexual adequada aumenta a vulnerabilidade e favorece a atuação de agressores, que se aproveitam da desinformação, da culpa e do medo para manter o abuso sexual em segredo.
Normas de gênero são expectativas e comportamentos que a sociedade impõe com base no sexo de uma pessoa, desde o nascimento, muitas vezes criando padrões rígidos sobre o que é considerado adequado para meninos e, por sua vez, para meninas. Essas normas não só limitam a liberdade e expressão dos indivíduos, como também podem contribuir para a perpetuação da violência sexual.
As normas de gênero associadas ao machismo, em sua raiz, criam um ambiente onde as pessoas do sexo feminino são frequentemente vistas como subordinadas, enquanto as do sexo masculino são ensinadas a se posicionar como dominantes.
Esse desequilíbrio de poder, quando internalizado desde a infância, pode resultar em comportamentos agressivos, desrespeitosos e violentos contra as meninas e mulheres.
O machismo e as expectativas associadas à masculinidade não apenas afetam as mulheres, mas também os próprios homens. O enfrentamento dessas normas de gênero é crucial não apenas para prevenir a violência sexual, mas também para garantir uma sociedade mais justa e igualitária para todas as pessoas.
A violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil também está profundamente relacionada ao racismo estrutural. Crianças e adolescentes negros estão mais expostos a contextos de vulnerabilidade social, têm menos acesso a redes de proteção e enfrentam maiores barreiras para ter seus relatos reconhecidos e acolhidos.
O racismo estrutural no Brasil manifesta-se em diversas esferas, incluindo a saúde, educação e segurança pública. Neste cenário, crianças e adolescentes negros enfrentam grandes desafios em relação à saúde mental devido às experiências contínuas de discriminação e exclusão social. Essas condições criam um ambiente propício para a ocorrência de violência sexual, uma vez que a falta de acesso a recursos e redes de apoio dificulta a denúncia e a proteção das vítimas.
A hipersexualização e a desumanização de corpos negros, construídas historicamente, contribuem para a naturalização da violência e para a tolerância social diante dessas violações. Além disso, práticas institucionais discriminatórias podem resultar em revitimização, descredibilização e ausência de respostas adequadas.
Reconhecer o racismo como fator estruturante é fundamental para compreender as desigualdades tanto na ocorrência da violência sexual quanto na resposta do Estado e da sociedade.
A pobreza e a desigualdade social criam contextos de maior vulnerabilidade, nos quais crianças e adolescentes ficam mais expostos à violência sexual.
A falta de acesso a direitos básicos, a precariedade das redes de proteção, a insegurança alimentar e habitacional e a presença limitada do Estado ampliam os riscos, especialmente em situações de exploração sexual.
A desigualdade também impacta o acesso à informação, aos canais de denúncia e aos serviços de atendimento, além de favorecer a impunidade em territórios onde a fiscalização e a proteção institucional são frágeis.
A violência sexual contra crianças e adolescentes é resultado de múltiplos fatores interligados — culturais, históricos, sociais e institucionais. Combatê-la exige mais do que responder aos casos já ocorridos: exige prevenir, informar, fortalecer redes de proteção e transformar normas sociais que naturalizam a violação de direitos.
Reconhecer essas causas é um passo fundamental para romper silêncios, proteger vítimas e construir ambientes verdadeiramente seguros para o desenvolvimento de crianças e adolescentes.