{"id":2812,"date":"2010-10-29T16:47:55","date_gmt":"2010-10-29T18:47:55","guid":{"rendered":"https:\/\/childhoodbrasil.c7net.com.br\/?p=2812"},"modified":"2026-01-26T11:08:47","modified_gmt":"2026-01-26T14:08:47","slug":"foco-no-abusador-para-evitar-a-reincidencia","status":"publish","type":"acoes-e-iniciativas","link":"https:\/\/www.childhood.org.br\/acoes-e-iniciativas\/foco-no-abusador-para-evitar-a-reincidencia\/","title":{"rendered":"Foco no abusador: para evitar a reincid\u00eancia"},"content":{"rendered":"<div class=\"texto-noticia\">Ilustra\u00e7\u00e3o de Michele Iacocca para a cartilha Navegar com Seguran\u00e7a da Childhood Brasil<\/p>\n<p>O atendimento terap\u00eautico ao abusador funciona? \u201cA gente ainda precisa pesquisar mais para ter uma resposta definitiva. Acredito que sim, por estar engajada nessa causa, mas n\u00e3o pelos dados de minhas pesquisas, que foram pontuais\u201d, afirma a psic\u00f3loga goiana Karen Michel Esber, pesquisadora, consultora em aten\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia e autora do livro Autores de Viol\u00eancia Sexual contra Crian\u00e7as e Adolescentes (2009).<\/p>\n<p>\u201cAs pesquisas internacionais revelam que sempre existe um \u00edndice de reincid\u00eancia. Mas, se conseguirmos recuperar ao menos uma porcentagem desses sujeitos, quantas crian\u00e7as n\u00e3o ser\u00e3o protegidas?\u201d A seguir, a continua\u00e7\u00e3o da entrevista publicada na postagem passada.<\/p>\n<p><strong>Existem diferen\u00e7as de tratamento para um abusador e para um ped\u00f3filo?<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 preciso deixar claro que, do ponto de vista cl\u00ednico, os abusadores nem sempre s\u00e3o ped\u00f3filos e os ped\u00f3filos nem sempre abusam sexualmente de crian\u00e7as. Durante os atendimentos [do programa Invertendo a Rota, realizado em Goi\u00e2nia entre 2004 e 2007], acompanhamos tr\u00eas casos de pessoas que tinham fantasias sexuais, desejo e interesse sexual por crian\u00e7as, mas que nunca chegaram \u00e0s vias de fato. S\u00e3o, portanto, considerados ped\u00f3filos. Obviamente que o tratamento de um ped\u00f3filo \u00e9 diferente do que aquele direcionado a um sujeito que sofreu viol\u00eancia sexual na inf\u00e2ncia e atualmente abusa de crian\u00e7as para repetir esse trauma. Como o caso do Henrique [nome fict\u00edcio], por exemplo. Havia sofrido abuso na inf\u00e2ncia e queria abusar de uma crian\u00e7a do mesmo jeito que ele tinha sido violentado a fim de aliviar a pr\u00f3pria raiva que sentia. Henrique n\u00e3o tinha a atra\u00e7\u00e3o sexual por crian\u00e7as, ele n\u00e3o \u00e9 um ped\u00f3filo. A quest\u00e3o dele era a vingan\u00e7a. Um terapeuta n\u00e3o trata nenhum sujeito da mesma forma que outro. \u00c9 preciso assumir um tom de singularidade para cada caso e identificar como esse indiv\u00edduo significa essas viol\u00eancias que ele comete.<\/p>\n<p><strong>Mas existem tra\u00e7os em comum entre os abusadores?<\/strong><\/p>\n<p>Nunca podemos generalizar, mas posso afirmar que, entre os agressores que acompanhamos, h\u00e1 um \u00edndice mais elevado de viol\u00eancias sofridas na inf\u00e2ncia \u2013 f\u00edsicas, psicol\u00f3gicas e sexuais \u2013 e de abandono familiar, neglig\u00eancia. Foram rar\u00edssimos os casos de os abusadores que disseram ter tido uma inf\u00e2ncia feliz. O sujeito n\u00e3o consegue elaborar seus traumas e tende a repetir as agress\u00f5es que sofreu, por\u00e9m agora como aquele que \u201cest\u00e1 no poder\u201d e que pode, ent\u00e3o, subjugar. O Henrique falava: \u201cera bom quando abusava deles porque eu tinha o poder; eu os maltratava porque, quando fui maltratado, n\u00e3o pude fazer nada\u201d. Ele repetia, ent\u00e3o, aquela inf\u00e2ncia mal vivida invertendo os pap\u00e9is.<\/p>\n<p><strong>O senso comum diz que os abusadores t\u00eam problemas sexuais. \u00c9 verdade?<\/strong><\/p>\n<p>Uma das conclus\u00f5es do meu livro \u00e9 justamente que a sexualidade do abusador \u00e9 uma \u00e1rea desconhecida para a gente. Quando fiz a pesquisa de mestrado, analisei os processos judiciais desses sujeitos. Era un\u00e2nime entre ju\u00edzes e promotores que essas pessoas tinham sexualidade exacerbada, problemas com a libido. Usavam termos como \u201co monstro man\u00edaco com sua tara libidinal\u201d, dando a entender de que o problema do abusador sexual seria restrito \u00e0 esfera da sexualidade. Mas n\u00e3o \u00e9; pode ter origem na inf\u00e2ncia tr\u00e1gica, na elabora\u00e7\u00e3o mal sucedida de seus traumas, na vis\u00e3o distorcida da fun\u00e7\u00e3o parental, de quem \u00e9 a crian\u00e7a, do que significa a inf\u00e2ncia. O abuso n\u00e3o passa necessariamente pela quest\u00e3o do desejo sexual. Eu perguntava ao Henrique o que ele sentia quando abusava dos meninos. A resposta era a mesma, sempre: \u201craiva\u201d, ele dizia, \u201cmuita raiva\u201d. Era o que lhe trazia prazer.<\/p>\n<p><strong>Um indiv\u00edduo pode evitar cometer um abuso sexual?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel prevenir. Durante o projeto, desenvolvemos um programa lindo de divulga\u00e7\u00e3o nas r\u00e1dios de Goi\u00e2nia. Divulg\u00e1vamos: \u201cSe voc\u00ea tem atra\u00e7\u00e3o sexual por crian\u00e7as e adolescentes, existe ajuda, nos procure.\u201d E d\u00e1vamos o telefone. Houve muitas respostas e atendemos efetivamente seis casos de pessoas que sentiam desejo sexual por crian\u00e7as. O trabalho terap\u00eautico buscava conscientizar esses indiv\u00edduos de que os meninos e as meninas funcionavam para eles como as drogas para um dependente qu\u00edmico. Por isso, ensin\u00e1vamos que eles deviam evitar estar sozinho com crian\u00e7as e outras situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade, al\u00e9m de trabalhar com as fantasias sexuais. Como um heterossexual, que em grande parte de sua vida sentir\u00e1 atra\u00e7\u00e3o pelo sexo oposto, ou um homossexual que ser\u00e1 atra\u00eddo por indiv\u00edduos do mesmo sexo, o ped\u00f3filo ter\u00e1 desejo sexual por crian\u00e7as. Atendemos um rapaz que nos procurou ao ser flagrado pela esposa acariciando um menino. Ele nos pediu ajuda, ainda se encontra em tratamento e diz que a terapia o tem ajudado a acreditar nele mesmo, a ser capaz de se conter e n\u00e3o se aproximar de crian\u00e7as.<\/p><\/div>\n<div class=\"row dados-publicacao\"><\/div>\n","protected":false},"featured_media":0,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"class_list":["post-2812","acoes-e-iniciativas","type-acoes-e-iniciativas","status-publish","hentry"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.14 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Foco no abusador: para evitar a reincid\u00eancia - Childhood Brasil<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.childhood.org.br\/acoes-e-iniciativas\/foco-no-abusador-para-evitar-a-reincidencia\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Foco no abusador: para evitar a reincid\u00eancia - Childhood Brasil\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de Michele Iacocca para a cartilha Navegar com Seguran\u00e7a da Childhood Brasil O atendimento terap\u00eautico ao abusador funciona? \u201cA gente ainda precisa pesquisar mais para ter uma resposta definitiva. 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