{"id":2792,"date":"2010-11-22T16:31:47","date_gmt":"2010-11-22T18:31:47","guid":{"rendered":"https:\/\/childhoodbrasil.c7net.com.br\/?p=2792"},"modified":"2026-01-26T11:08:47","modified_gmt":"2026-01-26T14:08:47","slug":"depoimento-de-mae-vergonha-e-dificuldades-de-incriminar-o-agressor-sexual","status":"publish","type":"acoes-e-iniciativas","link":"https:\/\/www.childhood.org.br\/acoes-e-iniciativas\/depoimento-de-mae-vergonha-e-dificuldades-de-incriminar-o-agressor-sexual\/","title":{"rendered":"Depoimento de m\u00e3e: vergonha e dificuldades de incriminar o agressor sexual"},"content":{"rendered":"<p>Fel\u00edcia Balcon (nome fict\u00edcio) estava deitada na cama, brincando com seu filho Lucas (nome fict\u00edcio), de tr\u00eas anos. Quando de repente, ele pega um cinto que estava no ch\u00e3o e vai pra cima dela, imitando uma voz grossa masculina: \u201c\u2019Fica quietinho sen\u00e3o vou te dar uma surra e se voc\u00ea falar alguma coisa, vou machucar sua m\u00e3e e sua av\u00f3\u201d. O garotinho ainda acrescentou: \u201cHomem \u00e9 com mulher sen\u00e3o v\u00e3o rir de voc\u00ea. Mulher embaixo e homem em cima. Fica quietinho que eu vou colocar meu pipi no seu bumbum\u201d\u2019.<\/p>\n<p>Mesmo estando bem mais forte, depois de tr\u00eas anos ajudada pela terapia, a m\u00e3e ainda chora v\u00e1rias vezes emocionada ao lembrar-se da cena t\u00e3o chocante. Naquele dia teve de encarar a dura realidade de que o filho, al\u00e9m de ser abusado sexualmente pelo pr\u00f3prio pai, sofria amea\u00e7as:<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a maior dificuldade enfrentada por uma m\u00e3e quando descobre que o\/a filho(a) foi v\u00edtima de abuso sexual dentro da pr\u00f3pria fam\u00edlia e \u00e9 amea\u00e7ado?<\/strong><\/p>\n<p>A gente perde o ch\u00e3o e enfrenta muitas batalhas. As pessoas n\u00e3o sabem o que fazer, nem por onde come\u00e7ar, porque n\u00e3o se fala muito sobre isso. Primeiro, a gente n\u00e3o quer acreditar que tenha realmente acontecido, que algu\u00e9m seja capaz de tal \u201c\u2019monstruosidade\u201d. Depois, vem a vergonha de expor o caso. Quando eu comecei a desconfiar, procurei na internet e li sobre algumas rea\u00e7\u00f5es que as crian\u00e7as apresentam quando s\u00e3o v\u00edtimas de abuso, mas a maioria dos casos era com crian\u00e7as maiores de sete anos. N\u00e3o achei nada para beb\u00eas e crian\u00e7as muito pequenas. Meu filho tinha apenas tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>Deveria haver um servi\u00e7o que mostrasse informa\u00e7\u00f5es mais diretas para as m\u00e3es e familiares de como agir nestes casos, encorajando as pessoas a buscarem ajuda, com todos os locais que devem ser procurados e um passo a passo, porque nesta hora a gente fica perdida e \u00e9 preciso que algu\u00e9m nos fale o que fazer.<\/p>\n<p><strong>A escola percebeu alguma mudan\u00e7a de comportamento do seu filho e de alguma forma te ajudou na den\u00fancia?<\/strong><\/p>\n<p>A professora contou que ele bateu em um coleguinha, comportamento totalmente oposto ao que ele sempre apresentou e que, outro dia, reagiu agressivamente quando ela elogiou um casaco novo que o pai tinha dado para ele, dizendo: \u201cQuero que ele morra!\u201d. Mas, quando precisei de testemunhas, a diretora da escola deu um passo atr\u00e1s e n\u00e3o queria testemunhar de jeito nenhum. Eu implorei para a professora, mas por press\u00e3o da diretoria, ela tamb\u00e9m n\u00e3o quis. S\u00f3 foram mesmo quando a delegacia entrou em contato dizendo que elas eram obrigadas a entrar no caso, mas contaram o m\u00ednimo poss\u00edvel para n\u00e3o se envolver.<\/p>\n<p><strong>Qual foi o primeiro local que voc\u00ea buscou informa\u00e7\u00e3o e como foi comunicar o abuso?<\/strong><\/p>\n<p>Procurei a Vara da Inf\u00e2ncia, por recomenda\u00e7\u00e3o da minha irm\u00e3, onde me disseram que se eu suspeitava de algo deveria fazer um boletim de ocorr\u00eancia na delegacia, mas esta \u00e9 uma decis\u00e3o muito dif\u00edcil. Voltei l\u00e1 alguns dias depois, para falar com a mesma assistente social, que ficou indignada porque eu ainda n\u00e3o tinha denunciado e me mandou pegar meu filho na escola e procurar a pol\u00edcia. Na delegacia, al\u00e9m de ficar oito horas para conseguir ser atendida, eu senti uma rea\u00e7\u00e3o hostil, do delegado duvidando de mim. Ouvi algo como: \u201cSe voc\u00ea estiver inventando, ele pode entrar com a\u00e7\u00e3o e pedir muito dinheiro\u201d. Respondi que estava fazendo aquilo com base no que tinha escutado do meu pr\u00f3prio filho, que era para defend\u00ea-lo e tamb\u00e9m outras crian\u00e7as. Tamb\u00e9m foi muito estranho ouvir as perguntas que fizeram para ele, como se fossem para descobrir se eu o havia induzido a inventar uma hist\u00f3ria. Ser\u00e1 que n\u00e3o enxergam que n\u00e3o tenho nada a ganhar inventando uma hist\u00f3ria, e que eu adoraria que meu filho tivesse um bom pai?<\/p>\n<p><strong>E como foi o atendimento dos profissionais de sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n<p>Fui encaminhada ao Hospital P\u00e9rola Byington, que apesar de ser refer\u00eancia em atendimento a casos de viol\u00eancia sexual em S\u00e3o Paulo, \u00e9 muito prec\u00e1rio e n\u00e3o h\u00e1 pediatras l\u00e1, ent\u00e3o meu filho \u00a0foi atendido por uma ginecologista. Fizemos tamb\u00e9m terapia com boas profissionais, mas infelizmente o laudo delas relatando que tudo levava a crer que meu filho tinha sido abusado n\u00e3o teve validade no processo. O servi\u00e7o deveria ser interligado, porque \u00e9 a avalia\u00e7\u00e3o de um profissional do Estado e deveria valer como prova processual. O exame de corpo delito acabou dando inconclusivo, porque j\u00e1 havia se passado muitos dias do ocorrido quando fomos faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p><strong>Como o abuso afetou toda a fam\u00edlia?<\/strong><\/p>\n<p>Eu fiquei transtornada e minha fam\u00edlia completamente abalada. O abuso sexual na classe m\u00e9dia alta \u00e9 mais velado, porque as pessoas querem abafar, n\u00e3o querem se expor. Minha m\u00e3e entrou em depress\u00e3o. Eu passei a ter pesadelos todas as noites, sonhava que o abusador estava pegando meu filho. Sentia muito medo dele. As m\u00e3es tamb\u00e9m precisam de tratamento psicol\u00f3gico. Hoje, elas ainda fingem que nada aconteceu e evitam tocar no assunto. Minha av\u00f3 chegou a falar em algo do tipo perdoar&#8230; \u00c9 muito complicado&#8230;<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea falaria para as m\u00e3es que est\u00e3o passando pelo mesmo problema?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tenham vergonha! V\u00e3o e fa\u00e7am a den\u00fancia! Procurem ajuda! Quando estamos sozinhos \u00e9 mais dif\u00edcil. No Hospital, eu tive contato com um grupo de m\u00e3es que se apoiavam porque os filhos tinham sido abusados pelo professor na mesma escola. Percebi que somos todas iguais, independente da classe social, e pass\u00edveis de passar pelos mesmos problemas. Estejam atentas \u00e0s mudan\u00e7as de comportamento dos seus filhos, procurem logo ajuda m\u00e9dica e falem abertamente sobre sua suspeita, procurem imediatamente uma delegacia. N\u00e3o tenham medo!<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea buscou ajuda de um advogado?<\/strong><\/p>\n<p>Como minha fam\u00edlia achava melhor n\u00e3o expor o caso, cometi o erro de n\u00e3o procurar profissionais conhecidos, acabei pegando uma mulher muito ruim \u201cde porta de cadeia\u201d, indicada pelo escriv\u00e3o. Ela nem apareceu na audi\u00eancia. Fiquei sozinha com meu filho e minha m\u00e3e, com a psic\u00f3loga do P\u00e9rola Byinton e a professora como testemunhas.\u00a0 O pai (abusador) alegou que eu estava inventando tudo porque tinha ci\u00fames da nova namorada dele e a ju\u00edza acatou. Foi terr\u00edvel ver a ju\u00edza, o promotor e o advogado fazerem perguntas para o meu filho de tr\u00eas anos, como se ele fosse um adulto, ele s\u00f3 olhava para mim assustado e mudo. A\u00ed, o advogado de defesa se aproveitou e disse que somente o fato dele olhar para mim significava que eu o estava induzindo a inventar a hist\u00f3ria. O pr\u00f3prio Minist\u00e9rio P\u00fablico pediu a absolvi\u00e7\u00e3o do criminoso por falta de provas. Eu troquei quatro vezes de advogado. Agora estou com um escrit\u00f3rio bom, mas tinha que ter conseguido isso antes. Meu caso foi muito mal conduzido. Ter um bom advogado \u00e9 imprescind\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Por que \u00e9 t\u00e3o complicado prender o agressor?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito mais dif\u00edcil do que parece. A Justi\u00e7a s\u00f3 considera crime, quando houve flagrante e n\u00e3o enxerga que est\u00e1 criando uma m\u00e1fia de criminosos. Pesquisas s\u00e9rias mostram hoje que todos os piores matadores e agressores que se utilizam de requintes de crueldade, sofreram abuso na inf\u00e2ncia. Se o ciclo n\u00e3o parar, estar\u00e3o sendo criados novos abusadores. O maior medo de uma m\u00e3e cujo filho sofreu abuso, \u00e9 que ele vire um agressor no futuro. A gente entra em desespero, n\u00e3o gosto nem de pensar nisso. H\u00e1 casos em que o abusador \u00e9 solto e ainda a m\u00e3e tem que ficar pagando indeniza\u00e7\u00e3o, ouvi um caso deste na espera do visit\u00e1rio p\u00fablico. Mesmo enfrentando todos estes problemas, inclusive correndo o risco de estar lidando com ju\u00edzes de car\u00e1ter duvidoso, ou at\u00e9 mesmo ped\u00f3filos, no julgamento, as m\u00e3es n\u00e3o podem abafar o caso, porque precisamos proteger nossas crian\u00e7as.\u00a0 Eu hoje luto para que o abusador \u00a0perca o direito de ver meu filho. Se n\u00e3o persistirmos, a gente n\u00e3o muda esta situa\u00e7\u00e3o. O Estado n\u00e3o enxerga que ao deixar o abusador em liberdade, mais casos aparecer\u00e3o e quanto \u00a0mais casos aparecerem, mais eles ter\u00e3o que se movimentar para transformar esta realidade.<\/p>\n<p><strong>O que tem feito para mudar esta situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>No desespero, eu cheguei at\u00e9 a mandar uma carta ao Presidente da Rep\u00fablica e recebi uma resposta dizendo apenas que encaminhariam \u00e0 \u00e1rea de Direitos Humanos. Hoje, estou cercada de profissionais especializados e luto muito. Sou apenas uma formiguinha, mas, juntos, podemos formar um ex\u00e9rcito. A cabe\u00e7a de quem est\u00e1 no Judici\u00e1rio precisa mudar, porque as m\u00e3es das v\u00edtimas s\u00e3o vistas como loucas e os agressores s\u00e3o protegidos. Os laudos psicol\u00f3gicos precisam ter realmente validade nos processos e defendo que sejam formados ju\u00edzes e outros profissionais especializados em abuso sexual, que haja um rol de profissionais especializados no assunto. N\u00e3o quero mais viver este inferno. Espero contribuir por um mundo melhor, mais justo e humano onde as crian\u00e7as tenham de fato prote\u00e7\u00e3o do Estado, que as m\u00e3es sejam ouvidas e tratadas com respeito e dignidade, e os abusadores sejam punidos e n\u00e3o tenham mais chance de fazer novas v\u00edtimas. O pai do meu filho pode agora estar abusando de outras crian\u00e7as impunemente.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"class_list":["post-2792","acoes-e-iniciativas","type-acoes-e-iniciativas","status-publish","hentry"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.14 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Depoimento de m\u00e3e: vergonha e dificuldades de incriminar o agressor sexual - Childhood Brasil<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.childhood.org.br\/acoes-e-iniciativas\/depoimento-de-mae-vergonha-e-dificuldades-de-incriminar-o-agressor-sexual\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Depoimento de m\u00e3e: vergonha e dificuldades de incriminar o agressor sexual - Childhood Brasil\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Fel\u00edcia Balcon (nome fict\u00edcio) estava deitada na cama, brincando com seu filho Lucas (nome fict\u00edcio), de tr\u00eas anos. 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