{"id":2622,"date":"2011-06-13T09:52:26","date_gmt":"2011-06-13T12:52:26","guid":{"rendered":"https:\/\/childhoodbrasil.c7net.com.br\/?p=2622"},"modified":"2026-01-26T11:08:45","modified_gmt":"2026-01-26T14:08:45","slug":"confusao-mental-e-sentimento-de-culpa-sao-comuns-em-vitimas-de-abuso-sexual","status":"publish","type":"acoes-e-iniciativas","link":"https:\/\/www.childhood.org.br\/acoes-e-iniciativas\/confusao-mental-e-sentimento-de-culpa-sao-comuns-em-vitimas-de-abuso-sexual\/","title":{"rendered":"Confus\u00e3o mental e sentimento de culpa s\u00e3o comuns em v\u00edtimas de abuso sexual"},"content":{"rendered":"<div class=\"texto-noticia\">Ela tinha apenas dez anos quando foi seq\u00fcestrada a caminho da escola. Durante oito anos, a austr\u00edaca Natascha Kampusch foi submetida a todo o tipo de abuso f\u00edsico e psicol\u00f3gico at\u00e9 conseguir fugir do cativeiro. Seu relacionamento com o seq\u00fcestrador \u00e9 contado no livro 3096 dias. Segundo a jovem, os ass\u00e9dios sexuais faziam parte dos abusos di\u00e1rios com pancadas, socos e chutes, nas noites em que era algemada e obrigada a dormir com o seq\u00fcestrador.<\/p>\n<p>Natascha deixa claro os sentimentos contradit\u00f3rios que cultivou pelo agressor durante o per\u00edodo. \u201cO homem que me batia, me trancava no por\u00e3o e me deixava sem comer queria algu\u00e9m para abra\u00e7ar\u201d, relata. \u201cA pessoa que me roubou, que retirou minha fam\u00edlia e minha identidade, se tornou minha fam\u00edlia. Eu n\u00e3o tinha escolha a n\u00e3o ser aceit\u00e1-lo como tal\u201d, afirma a autora em outra passagem.<\/p>\n<p>Segundo a psic\u00f3loga Jaqueline Soares Magalh\u00e3es, consultora da Childhood Brasil, a confus\u00e3o de sentimentos e a culpa s\u00e3o muito freq\u00fcentes em crian\u00e7as e adolescentes abusados sexualmente.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os principais traumas gerados nos casos de abuso sexual infantojuvenil?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 uma s\u00e9rie de diferentes sequelas encontradas, de acordo com cada caso. Algumas consequ\u00eancias comuns s\u00e3o: dificuldades nos v\u00ednculos e relacionamentos interpessoais, principalmente por n\u00e3o confiarem nas pessoas, retraimento social e comportamentos anti-sociais. H\u00e1 tamb\u00e9m, \u00e0s vezes, comportamentos &#8220;delinquentes&#8221; (que podem ser entendidos como um pedido de ajuda), baixa auto-estima e sentimento de culpa, entre outros.<\/p>\n<p><strong>Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil as v\u00edtimas denunciarem os agressores?<\/strong><br \/>\nMuitos casos ocorrem dentro da pr\u00f3pria casa. O v\u00ednculo familiar implica em uma s\u00e9rie de afetos, hierarquias e numa rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a. Estes fatores interferem de forma direta nas consequ\u00eancias do abuso sexual vivido por uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>O medo de denunciar \u00e9 frequente nas situa\u00e7\u00f5es de abuso sexual incestuoso tamb\u00e9m por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es: medo de retalia\u00e7\u00e3o, de que o abusador cometa alguma viol\u00eancia com outro membro da fam\u00edlia; medo de que esta pessoa seja presa e das consequ\u00eancias que isto trar\u00e1 para a fam\u00edlia. Al\u00e9m disso, \u00e9 bastante comum que a crian\u00e7a n\u00e3o reconhe\u00e7a como viol\u00eancia o abuso sexual que vem sofrendo: pode entender como uma forma de carinho, de afeto de determinado familiar com ela. Como se trata de uma situa\u00e7\u00e3o sexual ainda desconhecida, a crian\u00e7a pode levar algum tempo para se dar conta de que aquilo n\u00e3o deveria estar acontecendo. \u00c9 poss\u00edvel que s\u00f3 compreenda quando a den\u00fancia acontecer, por parte de outra pessoa que ir\u00e1 explicar \u00e0 crian\u00e7a que aquilo era errado. As situa\u00e7\u00f5es de abuso sexual incestuoso ou intrafamiliar s\u00e3o extremamente complexas, n\u00e3o se prendem a regras, e incluem uma gama muito densa de fatores para compreendermos sua ocorr\u00eancia e funcionamento.<\/p>\n<p><strong>Uma crian\u00e7a que passa tantos anos por qualquer tipo de abuso sexual consegue se curar e se recuperar totalmente?<\/strong><br \/>\nA palavra &#8220;cura&#8221; em psicologia e psiquiatria \u00e9 muito relativa e abre campo para discuss\u00f5es intermin\u00e1veis acerca de seu significado. Poder\u00edamos considerar, resumidamente, que \u00e9 poss\u00edvel que pessoas que viveram situa\u00e7\u00f5es de priva\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia durante um longo per\u00edodo de suas vidas ressignifiquem as experi\u00eancias e encontrem novos referenciais para continuar vivendo, apesar da viol\u00eancia sofrida. Elas podem voltar a acreditar em rela\u00e7\u00f5es livres da marca da viol\u00eancia, embora suas mem\u00f3rias estejam sempre presentes. Contudo, \u00e9 importante ressaltar que para cada uma dessas pessoas este processo ser\u00e1 vivido de forma \u00fanica, de acordo com os recursos que encontrar em si mesma e no ambiente ao seu redor (apoio afetivo, profissional etc.). As marcas e consequ\u00eancias tamb\u00e9m devem ser compreendidas como \u00fanicas a cada uma dessas pessoas. N\u00e3o h\u00e1 regras. Al\u00e9m disso, muitos fatores est\u00e3o relacionados \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas de viol\u00eancia, como a idade em que a viol\u00eancia ou priva\u00e7\u00e3o aconteceu, o per\u00edodo de tempo em que isso se deu, o tipo de v\u00ednculo desta pessoa com o agressor e a rede de apoio encontrada.<\/p>\n<p><strong>No livro, Natascha relata uma s\u00e9rie de sentimentos contradit\u00f3rios em rela\u00e7\u00e3o ao agressor. Isso \u00e9 comum em crian\u00e7as v\u00edtimas de abuso, principalmente quando s\u00e3o pessoas pr\u00f3ximas que elas confiavam e sentiam carinho?<\/strong><br \/>\nA rela\u00e7\u00e3o afetiva da crian\u00e7a com o agressor \u00e9 deturpada pela inser\u00e7\u00e3o de um contexto sexual entre elas que n\u00e3o deveria acontecer. Contudo, afeto, carinho, confian\u00e7a, amor e depend\u00eancia podem continuar presentes, originando uma s\u00e9rie de sentimentos contradit\u00f3rios na situa\u00e7\u00e3o de abuso: a crian\u00e7a pode amar e odiar o agressor, sentir-se culpada pelo abuso e caso algo de ruim aconte\u00e7a com o abusador (como ser preso ou afastado da fam\u00edlia), entre outros. Lidar com estes sentimentos gera grande ang\u00fastia e sofrimento, da\u00ed a import\u00e2ncia de que esta crian\u00e7a seja acolhida em uma Rede de Prote\u00e7\u00e3o especializada.<\/p>\n<p><strong>A autora do livro afirma que na vida nem tudo \u00e9 totalmente bom ou mal como parece e diz que as pessoas rotulam erradamente o que ela sentiu e sente pelo agressor. \u00c9 comum esta confus\u00e3o mental acontecer, isso leva \u00e0 culpa?<\/strong><br \/>\nA coloca\u00e7\u00e3o dela de que nem tudo \u00e9 bom ou mal \u00e9 bastante adequada. De fato, no mundo, ningu\u00e9m \u00e9 apenas bom ou apenas mal, e esta percep\u00e7\u00e3o \u00e9 uma conquista do ser humano ao longo de seu desenvolvimento, desde crian\u00e7a. Por exemplo, o mesmo pai que comete abuso sexual contra a filha, \u00e9 quem a coloca para dormir, traz presentes no anivers\u00e1rio, a leva para passear, traz comida para casa, etc. No abuso sexual incestuoso, \u00e9 muito frequente a confus\u00e3o de sentimentos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o e ao agressor, gerando ang\u00fastia e sofrimento.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o de abuso pode ser prazerosa para a crian\u00e7a, por mais absurdo que isso possa soar para a maioria das pessoas. Saber que isto n\u00e3o deveria acontecer com ela, traz um imenso sentimento de culpa. A crian\u00e7a pode ainda se sentir culpada por n\u00e3o conseguir se livrar da situa\u00e7\u00e3o, ignorando o fato de que n\u00e3o \u00e9 responsabilidade dela por um fim a isto. Cabe ao adulto a prote\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a e o estabelecimento do limite nas rela\u00e7\u00f5es.<\/p><\/div>\n<div class=\"row dados-publicacao\"><\/div>\n","protected":false},"featured_media":0,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"class_list":["post-2622","acoes-e-iniciativas","type-acoes-e-iniciativas","status-publish","hentry"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.14 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Confus\u00e3o mental e sentimento de culpa s\u00e3o comuns em v\u00edtimas de abuso sexual - Childhood Brasil<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.childhood.org.br\/acoes-e-iniciativas\/confusao-mental-e-sentimento-de-culpa-sao-comuns-em-vitimas-de-abuso-sexual\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Confus\u00e3o mental e sentimento de culpa s\u00e3o comuns em v\u00edtimas de abuso sexual - Childhood Brasil\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Ela tinha apenas dez anos quando foi seq\u00fcestrada a caminho da escola. 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