{"id":1764,"date":"2015-05-08T16:58:51","date_gmt":"2015-05-08T19:58:51","guid":{"rendered":"https:\/\/childhoodbrasil.c7net.com.br\/?p=1764"},"modified":"2026-01-26T11:07:55","modified_gmt":"2026-01-26T14:07:55","slug":"caminhos-do-incesto-a-familia-em-xeque","status":"publish","type":"acoes-e-iniciativas","link":"https:\/\/www.childhood.org.br\/acoes-e-iniciativas\/caminhos-do-incesto-a-familia-em-xeque\/","title":{"rendered":"Caminhos do incesto: a fam\u00edlia em xeque"},"content":{"rendered":"<p>Desenho contido na cartilha &#8220;Abuso sexual: que viol\u00eancia \u00e9 essa?&#8221; (Cearas-USP)<\/p>\n<p>Quando o psiquiatra Cl\u00e1udio Cohen, da Faculdade de Medicina da USP, come\u00e7ou a pesquisar sobre o incesto para sua tese de doutorado, n\u00e3o havia dados sobre o fen\u00f4meno no Brasil. Foi preciso, ao lado do respons\u00e1vel pelo setor de sexologia do Instituto M\u00e9dico-Legal de S\u00e3o Paulo, perguntar \u00e0s v\u00edtimas sobre quem tinha sido o abusador, j\u00e1 que apenas o exame era feito sem questionamentos adicionais.<\/p>\n<p>Essa pesquisa trouxe \u00e0 tona os primeiros dados sobre a ocorr\u00eancia de abusos incestuosos entre os casos atendidos. Da constata\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno \u00e0s possibilidades de tratamento, surgiu o Centro de Estudos e Atendimento Relativos ao Abuso Sexual (Cearas), ligado \u00e0 USP, em 1993. A assist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 oferecida apenas \u00e0 v\u00edtima; cerca de 290 fam\u00edlias, encaminhadas pela Justi\u00e7a, j\u00e1 foram atendidas nos 17 anos de exist\u00eancia do centro. \u201cN\u00e3o estamos fechados na quest\u00e3o assistencial. Produzimos trabalhos cient\u00edficos e participamos de congressos para tornar p\u00fablico o tema. Afinal, uma das fun\u00e7\u00f5es da universidade \u00e9 partilhar conhecimento e, assim, possibilitar que a sociedade se aprimore\u201d, diz Cl\u00e1udio.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia dos profissionais do Cearas tem revelado como ainda persistem preconceitos e equ\u00edvocos quando o tema \u00e9 o abuso incestuoso. \u201cMuitos acham que o segredo impera nos casos de abuso intrafamiliar porque h\u00e1 um pai d\u00e9spota, um membro da fam\u00edlia que \u00e9 violento e alco\u00f3latra, criam todo um estere\u00f3tipo. Mas esse tipo de abuso raramente envolve viol\u00eancia f\u00edsica ou uma amea\u00e7a de agress\u00e3o corporal, \u00e9 tudo mais sutil\u201d, afirma o psic\u00f3logo Tadeu Roberto de Abreu, um dos integrantes da equipe do centro. \u201cO carinho e o er\u00f3tico aparecem de forma confusa \u00e0 crian\u00e7a, ela n\u00e3o sabe discernir quando e como o adulto est\u00e1 passando dos limites. \u00c0s vezes, \u00e9 o \u00fanico afeto que recebe em casa. Por isso, a experi\u00eancia incestuosa n\u00e3o \u00e9 necessariamente traum\u00e1tica num primeiro momento, n\u00e3o ser\u00e1 sentida de imediato com horror.\u201d Na maioria dos casos, o agressor \u00e9 uma pessoa querida dentro da fam\u00edlia. De acordo com Tadeu, quando o sentimento de raiva surge na terapia, nem sempre \u00e9 direcionado ao abusador, mas sim \u00e0s m\u00e3es, que n\u00e3o cuidaram, n\u00e3o prestaram aten\u00e7\u00e3o nem escutaram os apelos do filho.<\/p>\n<p>Outro estere\u00f3tipo recorrente diz respeito ao g\u00eanero do abusador. A m\u00eddia e a sociedade em geral associam o abuso sexual de crian\u00e7as e adolescentes a uma pr\u00e1tica predominantemente masculina. \u201cOra, nos Estados Unidos j\u00e1 existem v\u00e1rios processos contra mulheres ped\u00f3filas e professoras que abusam de alunos\u201d, diz Cl\u00e1udio Cohen. Segundo ele, a total falta de compromisso com a fun\u00e7\u00e3o materna por parte de muitas mulheres acaba expondo a crian\u00e7a ao risco \u2013 s\u00e3o aquelas m\u00e3es que n\u00e3o percebem nada ou n\u00e3o agem de modo a interromper o abuso. \u201cA figura da m\u00e3e parece estar envolta numa ideia de santidade que n\u00e3o pode ser questionada. Mas aqui vemos casos de m\u00e3es n\u00e3o somente coniventes, mas tamb\u00e9m perversas e que fazem mal aos filhos\u201d, completa Tadeu. De acordo com ele, as pessoas n\u00e3o questionam o acesso que as m\u00e3es t\u00eam ao corpo dos filhos nem certos cuidados ou toques claramente abusivos. \u201cA m\u00e3e que pede para o filho adolescente dormir na cama com ela ou que se oferece para dar banho nele, por exemplo\u201d, diz o psic\u00f3logo.<\/p>\n<p>Uma constata\u00e7\u00e3o importante, segundo os profissionais do Cearas, \u00e9 o fato de que indiv\u00edduos que n\u00e3o receberam aten\u00e7\u00e3o suficiente durante a inf\u00e2ncia ou mesmo que sofreram abuso sexual de parentes quando pequenos \u2013 e n\u00e3o tiveram atendimento adequado \u2013 tendem a repetir a situa\u00e7\u00e3o em sua pr\u00f3pria fam\u00edlia, seja atuando da mesma forma, seja buscando um parceiro que reproduza tal comportamento. Por isso, o Cearas passou a atender fam\u00edlias. \u201cN\u00e3o s\u00f3 a v\u00edtima e o abusador precisam de tratamento psicol\u00f3gico\u201d, diz Tadeu. \u201cUm irm\u00e3o que presenciou o abuso de uma irm\u00e3, um parente a quem a viol\u00eancia tenha sido revelada ou mesma a m\u00e3e, que em anos de abuso cont\u00ednuo n\u00e3o desconfiou de nada nem se mobilizou para que o sofrimento da crian\u00e7a terminasse, todos esses tamb\u00e9m necessitam de atendimento. Somente tirar o abusador do conv\u00edvio familiar n\u00e3o vai resolver.\u201d<\/p>\n<p>A ocorr\u00eancia do abuso sexual dentro de casa revela que, provavelmente h\u00e1 algum tempo, aquela fam\u00edlia j\u00e1 apresenta um desajuste nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais e na defini\u00e7\u00e3o dos limites f\u00edsicos e afetivos entre os membros. Em boa parte dos casos, o pai ou a m\u00e3e (ou ambos) n\u00e3o exercem a fun\u00e7\u00e3o parental (talvez porque n\u00e3o a tiveram dentro de casa, quando eram crian\u00e7as), ou seja, o papel de cuidar, educar, orientar os filhos, impor limites e delimitar fronteiras para a individualidade de cada um.<\/p>\n<p>*Post originalmente publicado em 23\/09\/2010<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"class_list":["post-1764","acoes-e-iniciativas","type-acoes-e-iniciativas","status-publish","hentry"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.14 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Caminhos do incesto: a fam\u00edlia em xeque - Childhood Brasil<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.childhood.org.br\/acoes-e-iniciativas\/caminhos-do-incesto-a-familia-em-xeque\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Caminhos do incesto: a fam\u00edlia em xeque - Childhood Brasil\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Desenho contido na cartilha &#8220;Abuso sexual: que viol\u00eancia \u00e9 essa?&#8221; (Cearas-USP) Quando o psiquiatra Cl\u00e1udio Cohen, da Faculdade de Medicina da USP, come\u00e7ou a pesquisar sobre o incesto para sua tese de doutorado, n\u00e3o havia dados sobre o fen\u00f4meno no Brasil. 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